Direito Imobiliário

Contrato de Locação: Direitos e Deveres do Inquilino e do Proprietário

04/05/2026 · 9 min de leitura

Alugar um imóvel é, para muitas famílias, uma das decisões financeiras mais relevantes do ano. Para o proprietário, é a forma de fazer o patrimônio render. Para o inquilino, é a base de uma rotina inteira, endereço, escola dos filhos, deslocamento para o trabalho. E, mesmo sendo um contrato tão presente no cotidiano, é também um dos mais mal compreendidos.

Reajustes incorretos, multas indevidas, devoluções de caução negadas, despejos que viram pesadelo, retomadas surpresa: a maior parte dos conflitos de locação que chegam ao escritório teria sido evitada com uma leitura atenta do contrato e o conhecimento básico da lei.

Neste artigo, o Dr. Cláudio Boriola explica, em linguagem clara, quais são os direitos e deveres de cada lado, como funcionam as garantias e os reajustes, em que situações o contrato pode ser rompido e quais cláusulas costumam ser abusivas, protegendo, ao mesmo tempo, quem aluga e quem é dono do imóvel.


A Lei Que Rege a Locação no Brasil

Toda locação de imóvel urbano no Brasil é regulada pela Lei 8.245/1991, conhecida como Lei do Inquilinato, reformada de forma significativa pela Lei 12.112/2009. Essa legislação se aplica tanto à locação residencial quanto à comercial e prevê regras específicas para cada situação. Em pontos não tratados pela Lei do Inquilinato, aplicam-se subsidiariamente os artigos 565 a 578 do Código Civil.

A Lei do Inquilinato é uma lei de ordem pública: muitas de suas regras não podem ser afastadas pelo contrato, mesmo que ambas as partes concordem. Isso significa que cláusulas contrárias à lei são consideradas nulas, ainda que tenham sido assinadas voluntariamente.


Locação Residencial e Comercial: Diferenças Que Importam

Embora reguladas pela mesma lei, a locação residencial e a comercial têm dinâmicas bem distintas:

  • Locação residencial: quando o contrato escrito tem prazo igual ou superior a 30 meses, ao fim desse prazo o proprietário pode exigir o imóvel sem precisar justificar (denúncia vazia). Em contratos por prazo inferior, o proprietário só pode retomar nas hipóteses específicas previstas em lei.
  • Locação comercial (não residencial): o ponto comercial tem proteção especial. O empresário que tiver contrato escrito por prazo igual ou superior a 5 anos, explorando o mesmo ramo de atividade ininterruptamente pelo mesmo período, tem direito à ação renovatória (arts. 51 a 57 da Lei 8.245/91), forçando a renovação do contrato.

Confundir as duas modalidades é um erro caro: contratos comerciais redigidos como se fossem residenciais perdem a proteção da renovatória; contratos residenciais com cláusulas comerciais geram conflitos sobre IPTU, despesas e benfeitorias.


Deveres do Proprietário (Locador)

O artigo 22 da Lei do Inquilinato lista as obrigações de quem aluga seu imóvel. Em síntese, o proprietário deve:

  • Entregar o imóvel em condições de uso, com instalações elétricas, hidráulicas e estruturais funcionando
  • Garantir o uso pacífico durante toda a vigência do contrato
  • Responder pelos vícios ou defeitos anteriores à locação
  • Fornecer recibo discriminado de aluguel e encargos pagos
  • Pagar as despesas extraordinárias do condomínio, pintura de fachada, reformas estruturais, instalação de novos equipamentos
  • Pagar IPTU e taxas, salvo estipulação em contrário (na prática, a maioria dos contratos repassa o IPTU ao inquilino, o que é juridicamente válido)

Atenção: se o imóvel apresentar problemas estruturais durante a locação, infiltração relevante, problema na rede elétrica, telhado comprometido, é obrigação do proprietário providenciar o reparo. O inquilino, ao constatar, deve comunicar formalmente, de preferência por escrito.


Deveres do Inquilino (Locatário)

O artigo 23 estabelece os deveres do locatário, que devem ser cumpridos com a mesma seriedade:

  • Pagar pontualmente o aluguel e os encargos
  • Usar o imóvel para o fim convencionado, quem aluga para morar não pode transformar em ponto comercial
  • Conservar o imóvel como se fosse seu
  • Devolver o imóvel no estado em que recebeu, salvo desgaste natural
  • Comunicar imediatamente danos ou problemas que exijam reparos do proprietário
  • Realizar reparos de pequena monta (manutenção rotineira, decorrente do uso)
  • Não fazer modificações estruturais sem autorização por escrito do proprietário
  • Pagar as despesas ordinárias de condomínio, salário de funcionários, limpeza, energia das áreas comuns, pequenas manutenções
  • Permitir vistorias periódicas mediante aviso prévio razoável

Um ponto frequentemente esquecido: pintura nova ao final da locação só é exigível se o contrato previr expressamente, ou se o inquilino tiver pintado de cor diferente da entrega original.


Garantias Locatícias: Como Funcionam e Qual Escolher

A Lei do Inquilinato (art. 37) prevê quatro modalidades de garantia, e o proprietário pode exigir apenas uma delas. Exigir duas garantias simultaneamente é prática vedada por lei e gera nulidade.

  • Caução em dinheiro: limitada a três meses de aluguel, deve ser depositada em caderneta de poupança em nome do locatário, com restituição dos valores corrigidos ao final
  • Caução em bens móveis ou imóveis: menos comum, exige averbação no registro do bem
  • Fiança: terceiro garante o pagamento; se o inquilino não pagar, o fiador responde com seu patrimônio (inclusive o único imóvel residencial, em razão de exceção legal)
  • Seguro-fiança locatício: apólice contratada pelo inquilino junto a seguradora; tem custo, mas dispensa fiador

Cada modalidade tem vantagens e riscos. A fiança é a mais barata para o inquilino e a mais segura para o proprietário, mas envolve um terceiro que assume responsabilidade pesada. O seguro-fiança elimina o constrangimento do fiador, mas onera mensalmente o inquilino. A caução é simples, mas o limite de três meses pode ser insuficiente em caso de inadimplência prolongada.


Reajuste, Revisão e Renovação: Não Confunda

São três conceitos diferentes, e a confusão entre eles gera litígio:

  • Reajuste: correção monetária anual baseada no índice contratado (IGP-M, IPCA, INPC). É automático e não muda o valor real do aluguel, apenas atualiza
  • Revisão: ação judicial cabível a cada 3 anos (art. 19 da Lei 8.245/91), quando o aluguel se distanciou do valor de mercado. Pode ser proposta tanto pelo proprietário (querendo aumento) quanto pelo inquilino (querendo redução)
  • Renovação: específica da locação comercial, garantida por ação renovatória nas condições já mencionadas

Para o inquilino residencial, isso significa: o proprietário não pode aumentar o aluguel além do índice contratado durante o prazo, exceto pela via judicial da ação revisional.


Quando o Contrato Pode Ser Rompido

Pelo Proprietário

  • Falta de pagamento, autoriza ação de despejo cumulada com cobrança (art. 9º, III)
  • Infração contratual ou legal, uso indevido, sublocação não autorizada, danos ao imóvel
  • Necessidade de uso próprio, ou para ascendente, descendente, cônjuge ou companheiro (art. 47, III) – apenas em contratos por prazo indeterminado ou após 30 meses
  • Realização de obras que exijam desocupação (art. 9º, IV)
  • Denúncia vazia ao fim de contrato escrito de 30 meses ou mais (art. 46) — o proprietário não precisa justificar

Pelo Inquilino

  • A qualquer tempo, mediante aviso prévio de 30 dias (art. 6º), com pagamento de multa proporcional ao tempo faltante (art. 4º, redação dada pela Lei 12.112/09)
  • Sem multa, em caso de transferência compulsória de emprego para outra localidade, desde que comunicado por escrito ao locador em até 30 dias da transferência (art. 4º, parágrafo único)

Multas e Cláusulas: O Que Pode e o Que Costuma Ser Abusivo

A multa de rescisão antecipada é legítima, mas precisa ser proporcional ao tempo restante do contrato. Cobrar a multa cheia (geralmente equivalente a três aluguéis) de quem cumpriu a maior parte da locação é prática expressamente vedada pela lei desde a reforma de 2009.

Outras práticas que costumam ser questionadas judicialmente:

  • Retenção integral da caução sem prestação de contas detalhada
  • Cobrança de pintura completa quando o desgaste é apenas natural
  • Reajustes acima do índice contratado, fora da ação revisional
  • Exigência simultânea de fiador e seguro-fiança
  • Cláusulas que transferem ao inquilino despesas extraordinárias do condomínio
  • Multas por descumprimento de regras condominiais sem prévia ciência do inquilino

Em todas essas hipóteses, vale a pena consultar um especialista antes de aceitar cobranças ou abrir mão de valores.


Erros Mais Comuns Que Vemos no Escritório

  • Locação verbal, sem contrato escrito, ambas as partes ficam vulneráveis e perdem várias proteções da lei
  • Vistoria de entrada superficial, sem fotos e laudo detalhado, a discussão sobre danos na saída vira jogo de “minha palavra contra a sua”
  • Pagamento sem recibo, o ônus de provar pagamento é sempre do inquilino
  • Aceitar cobranças irregulares por evitar conflito, silenciar não anula direitos, mas dificulta sua comprovação posterior
  • Ignorar comunicações formais, uma notificação extrajudicial não respondida pode ser usada como prova em processo

Quando Procurar um Advogado?

A locação é um dos contratos em que a prevenção custa pouco e a remediação custa muito. Antes de assinar, vale uma análise para identificar cláusulas abusivas, simular cenários de saída e entender o real alcance da garantia oferecida. Durante a vigência, qualquer notificação ou cobrança fora do padrão merece avaliação. Ao final, a vistoria de saída e a devolução da caução são momentos decisivos, e muitas vezes mal conduzidos.

A Advocacia Boriola atua em todas as etapas da relação locatícia: análise e elaboração de contratos, ações de despejo, cobrança de aluguéis, defesa de inquilinos, devolução de caução, ações revisionais e renovatórias, sempre buscando a solução mais eficiente e menos desgastante para o cliente.


Nota legal: Este artigo tem caráter meramente informativo e não substitui a consulta jurídica individualizada. Cada situação possui particularidades que devem ser analisadas por um advogado habilitado.


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